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      Bento XVI
     A história secreta da renúncia
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa.  19/02/2013 
Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba.
Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro.
O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.
Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas.
Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.
O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente.
Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.
A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.
Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa.
Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistoides e ultrarreacionários do Monsenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógrada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.
Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira.
O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.
Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano.
As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.
João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais.
Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres.
No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.
Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão.
Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro.
Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”.
Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção.
A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.    Tradução: Katarina Peixoto   Originalmente publicado na Carta Maior.
                      A UST de luto.
Notável. O ex-presidente da Argentina, Nestor Kirchner, Secretário-Geral da Unasul, morreu quarta-feira em Santa Cruz, sua província natal, hospitalizado na manhã do hospital de El Calafate, após sofrer uma parada cardíaca. Morreu um homem que acreditava na política como um instrumento de transformação e vivido por suas convicções.Nosso apoio ao presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, em sua grande tristeza pela perda de seu companheiro, e nosso chamado para a reflexão, unidade e apoio da família, amigos e colega.

A triste notícia também chocou o movimento sindical, a comunidade internacional a expressar seu sincero pesar pela morte do ex-presidente da Argentina e do actual Secretário-geral da Unasul, Nestor Kirchner.

A CRISE DO MOVIMENTO OPERÁRIO 

Marcos Del Roio

A questão da crise do movimento operário e do ideário socialista vem sendo associada desde os anos 80, tendo ainda recebido forte impulso com o colapso do socialismo de Estado, com temas e análises de profundo cunho ideológico que não podem ser entendidas relevando-se a atual ofensiva do capital em escala planetária. Muitas formulações vigentes tentam demonstrar que após a queda do muro de Berlim assistimos ao "fim da história", com a vitória da liberal-democracia e a dissolução, num mundo pós-moderno, da clássica contradição da modernidade capitalista, expressa no processo de valorização do capital, cuja implicação seria o esgotamento do movimento operário e do projeto socialista centrado no mundo do trabalho, assim como de qualquer antagonismo social. Numa interlocução apenas indireta com tais formulações, tentaremos compreender a crise atual do movimento operário numa perspectiva histórica oposta a essa. Nem é preciso dizer que a crise do movimento operário e da ação socialista no Brasil, ainda que com particularidades a serem consideradas e desvendadas, é parte desse quadro extremamente geral que se segue.
I
Como apontou Marx, o capital, no seu processo de reprodução ampliada (valorização), constitui-se no sujeito histórico fundante da modernidade. O processo de acumulação do capital depende da existência de determinadas relações sociais de produção da vida material que permitam a extração do valor excedente do trabalho, que é exatamente o que constitui a capital. Este, reportando-se ao liberalismo, através da aceitação da igualdade formal de indivíduos livres no mercado, organiza, segundo seus desígnios, o mundo do trabalho, do qual depende para sua reprodução ampliada.
Do conflito inter-capitais, pela apropriação de parcelas maiores do excedente, e da resistência operária à extensão indefinida da exploração do trabalho na forma de mais-valia absoluta (a escravidão tendencial), decorre o progresso técnico e a prevalência da mais-valia relativa (que diz respeito à produtividade social do trabalho). Assim como a classe operária surge como desdobramento subalterno necessário da ação sócio-histórica do capital, o movimento operário é, na sua origem, a manifestação prática da resistência operária à exploração imposta pelo processo de acumulação privada da riqueza socialmente produzida, configurando a contraditoriedade imanente da ordem social da modernidade capitalista, ou seja a luta de classes.
No decorrer de seus esforços para colocar anteparos à exploração capitalista, juridicamente definida no Estado liberal, o movimento operário foi criando sua própria institucionalidade e uma cultura política, sempre em contato com outras camadas sociais e visões de mundo. O sindicato e o partido de massa, constituídos desde o último quarto do século XIX, tornaram-se as principais instituições agregadoras do movimento operário, instrumentos de defesa e reivindicações econômicas e políticas e de difusão cultural. Por meio dessas instituições a classe operária pode elevar sua condição de vida, limitando as horas de trabalho e conseguindo melhorias salariais, e projetar representantes nos parlamentos do Estado liberal-burguês.
A cultura popular tradicional que se opunha tanto à ordem feudal quanto a nascente ordem do capital, se interseccionou com o pensamento social crítico gestado na modernidade, gerando o socialismo como ideologia e perspectiva histórica do movimento operário. A vulgarização do comunismo crítico, erigido na obra de Marx e Engels, tornou-se, superando o anarquismo e as concepções teóricas socialistas locais ou regionais, a principal ideologia do movimento operário a nível internacional. A luta do movimento operário pela ampliação do estatuto da cidadania, por direitos civis, políticos e sociais, contraditoriamente articulada à necessidade de setores da burguesia e do Estado em garantir a conquista de recursos naturais e mercados externos, ampliando o consenso social interno, foi responsável pela relativa democratização do Estado liberal-burguês, redefinindo a subalternidade do trabalhador coletivo dentro do Estado nacional.
Embora tenha conseguido impor certas condições ao capital e tenha conseguido, ainda que de forma esporádica, articular alianças sociais com trabalhadores do campo e com camadas sociais médias, o movimento operário não conseguiu construir as bases de sua própria hegemonia, constituindo-se em classe geral e em Estado. Nos fugazes momentos em que isso esteve por acontecer, a pressão político-militar e econômica do capital (ou seja uma intensa concentração hegemônica da ordem) acentuaram as deficiências socioculturais do movimento operário, levando à burocratizarão tanto suas instituições próprias como as experiências de poder socialista. Tal foi o caso da URSS, Estado surgido como desdobramento da derrota da revolução socialista internacional de 1917-1921, assim como já vinha ocorrendo anteriormente com sindicatos e partidos operários do núcleo do Ocidente. Por meio do reformismo o movimento operário tornou-se subalterno ao liberalismo, sem deixar de influencia-lo, no entanto, mas abandonando a perspectiva de um novo ordenamento da produção e do poder que implicasse a ruptura com a lógica do capital.
II
A ação sócio-histórica do capital, sempre em busca da extensão da mais-valia, através da "racionalização" do processo de trabalho, conformou nesse século um processo de produção chamado fordista-taylorista, baseado nas grandes unidades fabris e caracterizado pelo parcelamento de funções na linha de montagem e pela produção em série. O reformismo constituiu-se precisamente na ação reativa de um movimento operário sem projeto hegemônico para delimitar a exploração capitalista nessa forma de organização da produção, tendo sido o Estado assistencial (ideologicamente chamado de Estado do bem estar social) sua máxima realização histórica.
Terminada em 1945 a guerra dos 30 anos, derrotada a opção nazi-fascista, a recomposição da dominação política da burguesia ocorreu em torno do EUA. Nesse país, criador do fordismo e da nova classe operária taylorizada, a resistência operária havia sido vergada no início dos anos 20, com a imposição de sindicatos setoriais e por empresa, facilitando a cooptação por meio de políticas públicas que ofereciam assistência social e impunha a negociação direta entre sindicato e empresa, tornando assim residual a subjetividade operária antagônica ao capital.
Na Europa, tendo o corporativismo societário por fundamento, conformado em torno do sindicato e partido operário de extração social-democrata e das instituições representativas do Estado liberal democratizado, reconheceu-se a legitimidade das reivindicações sociais e a negociação normativa do conflito. A implantação de políticas de assistência social articulada a uma política econômica que associava emprego, investimento e consumo, possibilitou algum sucesso ao reformismo do movimento operário, embora reproduzisse a subalternidade do mundo do trabalho, garantida pelo mecanismo reprodutivo do capital dentro da fábrica fordista-taylorista e pela aceitação cultural do consumo massivo de bens perecíveis. Além do mais, ao enredar-se nas regras do jogo eleitoral, a social-democracia tendeu a perder seu caráter de partido operário, enquanto que os partidos comunistas, fortes na França e Itália, não foram também capazes de articular um projeto social alternativo a partir do movimento operário. O custo para o capital para a absorção de quase todo o movimento operário no interior da ordem determinada pela sua ação sócio-histórica foi a concessão de direitos sociais e a expansão significativa do estatuto da cidadania como base de um governo representativo.
A consolidação e expansão do socialismo estatal para a Europa oriental e China, desde fins dos anos 40, serviu de forte elemento adicional de pressão sobre o capital do núcleo do Ocidente recomposto da crise. O fortalecimento econômico e político-militar do chamado campo socialista, a ausência de propriedade privada dos grandes meios de produção, a enorme expansão dos direitos sociais e a ideologia estatal anticapitalista, aumentavam o poder de pressão do movimento operário sobre o capital. Mas o fato é que o socialismo estatal não fugiu à lógica do capital, ainda que a generalização da propriedade privada no Estado tenha permitido uma acumulação não capitalista do capital. Embora promovesse uma acumulação "coletiva" do capital, a organização do processo de trabalho na produção fabril tinha a mesma forma taylorizada e o mesmo objetivo de "racionalização". Se é assim. não se pode dizer que tenha ocorrido um movimento emancipatório concreto do mundo do trabalho e a subalternidade do movimento operário do Ocidente tem seu contraparte no socialismo estatal do Oriente, já que ambos se mantém dentro da mesma lógica do capital.
O fortalecimento do movimento operário, dentro da ordem do capital em expansão material e cognitiva, colocou, em fins dos anos 60, a questão democrática no centro do conflito social e da luta de classes, retomando temas postos ao final da guerra mundial e que a "guerra fria" conseguira refrear. A pressão operária sobre o capital conseguiu alçar ao governo, em alguns países, partidos social-democratas (ainda que em parceria), contribuindo para ampliação de direitos civis e sociais. Os comunistas de França e Itália comprovaram sua débil ação teórico-política tendo em vista a construção de uma nova hegemonia centrada no mundo do trabalho ao não conseguir incorporar o sentido anticapitalista e libertário presentes nos movimentos socioculturais de jovens e mulheres, eclodidos a partir de l968/69. Mesmo assim os comunistas atuaram para que o movimento operário erguesse barreiras contra a exploração do capital, ampliando sua inserção social e colocando a questão da democratização do Estado e do governo da economia. Colaboraram outrossim para a derrocada dos regimes ditatoriais ainda vigentes em Portugal, Espanha e Grécia. Os comunistas tiveram que se defrontar com a questão da democracia também no interior do socialismo estatal, com a frustrada experiência democrática da Checoslováquia, com a "revolução cultural" chinesa, além da também fracassada via chilena, que não pode ser dissociada desse contexto.
Na segunda metade dos anos 70 o processo de democratização, desencadeado pelas dificuldades da acumulação capitalista, pela pressão do movimento operário e pela ação dos movimentos sociais, viu-se barrado, pelo fato mesmo de não conseguir entabular uma ação sócio-histórica voltada para a construção de uma nova hegemonia centrada no poder do mundo do trabalho e na ultrapassagem da lógica do capital. O resultado foi a manutenção do movimento operário na situação de desdobramento subalterno da ação sócio-histórica do capital.
III
Tendo-se dado conta dos limites intrínsecos presentes na forma reprodutiva que deu origem ao "welfare State" e o potenciamento da pressão operária, o capital desencadeou uma revolução técnico-científica visando, a um só tempo, elevar-se a um novo padrão de acumulação e a induzir a crise político-cultural do movimento operário. A revoluçào técnico-científica aplicável diretamente ao processo produtivo, utilizando a automação e a informatização num sistema de máquinas eletrônicas flexíveis e inteligentes, aumenta a produtividade social do trabalho e as taxas de acumulação de maneira exponencial, e projeta a propriedade dos meios de conhecimento como eixo condutor da acumulação, em detrimento da propriedade direta dos meios de produção materiais (máquinas e terra). Com isso o capital financeiro, que conduz essa revolução informática e dela se beneficia, atinge um novo estágio de seu predomínio sobre o conjunto do capital, esvaziando outros segmentos.
A produtividade do trabalho, ampliada pelos efeitos da revoluçào técnico-científica, é levada a extremos por formas de gerenciamento do processo de trabalho introduzidas nas novas condições criadas pela ação sócio-histórica do capital, que implica uma exploração do trabalho intensificada igualmente ao extremo. Permanece sempre o objetivo de criar um mundo produtivo plenamente "racional" utilizando a flexibilização do trabalho e do emprego e reduzindo a subjetividade operária a um elemento do sistema de máquinas, de modo a atingir o menor "atrito" possível no circuito reprodutivo do capital. Assim é que o toyotismo, uma forma de gerenciamento do processo produtivo adequado às novas tecnologias representa uma transformação/persistência do fordismo-taylorismo, só que tem o ritmo de trabalho condicionado pela demanda de produtos e permite ao operário interagir dentro de uma equipe com mais de uma máquina ao mesmo tempo, aumentando a responsabilidade individual e a produtividade.
A reestruturação tecnológica da acumulação capitalista reorganiza o mundo do trabalho segundo seus desígnios (constituindo portanto uma ação político-cultural, i.é., hegemônica), promovendo a extensão e o desdobramento do subalterno necessário do capital e da modernidade, induzindo por fim a crise do movimento operário. O sistema de máquinas rígidas e repetitivas da produção de massa taylorizada, com sua atividade mecânica, empobrece a realização do trabalho, mas propicia laços de solidariedade derivadas das semelhanças de colocação no processo produtivo e nas condições de vida, que ganha expressão organizativa e cultural no sindicato e no partido de massa. A revoluçào tecnológica estende o ciclo reprodutivo do capital para além dos portões da fábrica, uma fábrica reorganizada, incorporando o laboratório experimental e também o consumo de máquinas inteligentes dotadas de memória, fragmentando a solidariedade operária, dissolvendo-a em corporativismo setoriais imersos no mercado capitalista, diluindo o antagonismo social latente presente no movimento operário, ainda que destituído de capacidade hegemônica.
A individualização do trabalho conectada às novas tecnologias e novas formas de organização e gerenciamento do processo produtivo representa uma ulterior expropriação da subjetividade operária pois, além da mão, invade a mente. Mas é assim que uma parte da força de trabalho, exatamente aquela responsável pela massa maior de mais-valia produzida, vê-se dotada de um conhecimento técnico científico, ocupada com tarefas de direção, supervisão e administração dentro da produção automatizada, ligando trabalho produtivo e cultura, e acabando por constituir algo próximo daquilo que Marx vislumbrava como a "classe operária superior". Essa fração da classe operária, no entanto, esta presente somente naquelas regiões e países que conduzem a revoluçào tecnológica e a reestruturação capitalista, o EUA, o Japão e a Alemanha, e em alguns poucos outros países de alta especialização produtiva industrial. Nos países de industrialização intermediária esse tipo de operário é, pelo menos por ora, numericamente insignificante ou então apenas uma realidade virtual.
Junto a essa nova classe operária gerada pela ação recente do capital, altamente especializada e qualificada, dotada de saber científico, que tem sua subjetividade presa ao computador e ao alto consumo, possível pelos altos salários, mantém-se a classe operária taylorizada, em diminuição, é certo, em alguns países altamente industrializados e mesmo em outros de industrialização intermediária que estão sofrendo um processo de reestruturação produtiva (como parece ser o caso do Brasil) ou então de desindustrialização (como o caso argentino). Mas há também aquelas regiões que podem absorver estruturas industriais obsoletas, reproduzindo assim a "velha" classe operária (como poder ser o caso do México). As novas tecnologias que geram a "classe operária superior" e diminuem a classe operária taylorizada, são responsáveis, juntamente com as novas formas de gerenciamento, pela poupança de trabalho vivo, geradores de desemprego estrutural crescente e massivo.
Esse proletariado que perde definitivamente o posto de trabalho, desqualificado e desvalorizado no seu saber técnico, permanece disponível para o capital para a realização de trabalho precário e/ou de tempo parcial. Essa massa crescente de força de trabalho proletarizada é engrossada por jovens que jamais encontrarão trabalho estável. É certo também que o trabalho precário e de tempo parcial, altamente rotativo, não estimula laços de solidariedade entre os trabalhadores. Mesmo sem falar da massa dos absolutamente marginalizados e que não tem qualquer utilidade para o capital, é possível afirmar que, do ponto de vista global, a classe operária, aqueles que vivem da venda da força de trabalho no mercado capitalista, tende a aumentar seu número de modo significativo, ao mesmo tempo que diversificada tremendamente seu perfil sócio-econômico e cultural.
A recomposição da hegemonia liberal-burguesa, invólucro da dominação do capital, parte da reestruturação produtiva possibilitada pela revoluçào técnico-científica e se espraia para a vida política e cultural, completando a crise do movimento operário e de sua cultura. A fragmentação material e cultural dos sujeitos coletivos permite a generalização de um individualismo proprietário e competitivo de massa, abstratamente equalizado no mercado capitalista, e induzido pelos meios de comunicação monopolizados pelo grande capital. Há o retorno massivo do discurso do indivíduo livre e igual a qualquer outro no mercado. Com isso ganha nova legitimidade social a bárbara concentração de riqueza e a correlata desigualdade, não vista desde os albores da modernidade. De posse de um amplo consenso social, que inclui ao aumento da repressão aos inúmeros fenômenos disruptivos da idealizada ordem liberal, e que se estende para franjas significativas do mundo do trabalho, é possível partir para o desmantelamento do "bem estar social". Os direitos sociais e os ganhos relativos do mundo do trabalho são assediados a fim de se aumentar a produtividade e a taxa de exploração e diminuir os encargos fiscais do Estado.
O colapso do socialismo de Estado é em grande medida resultado da ofensiva do capital, mas ao mesmo tempo que lhe desobstrui o caminho, permite acelerar a intensidade e o ritmo do ataque contra o mundo do trabalho. A oferta aumentada de produtos no mercado mundial (da qual o campo socialista era parte) e a pressão político-militar, possibilidades criadas pela revolução técnico-científica, pressionaram fortemente a economia estatal socialista, que via diminuir seu ritmo de acumulação interna, com dificuldades de suprir a demanda e precisando desviar recursos para fazer frente ao projeto militarista do Ocidente. Ademais a camada burocrática vivia uma crise de hegemonia, pressionada pela emergência de uma burguesia gestada na ilegalidade e nos subterrâneos da vida econômica, pelo mercado mundial e pela própria lógica da capital predominante naquele socialismo.
A saída vislumbrada para tal crise foi conduzir a transição do agonizante socialismo estatal para alguma forma de capitalismo monopolista de Estado que garantisse a ocidentalização ativa da URSS, com incorporação da revolução técnico-científica. Essa seria possível pela liberação de recursos alocados para a indústria bélica e pela importação de tecnologia do Ocidente, do que se deduz que um acordo com o grande capital -- que acabou em capitulação -- era imprescindível. De outra parte era necessário que se chegasse a uma reforma econômica e institucional que legalizasse o mercado e incorporasse a burguesia.
Como não havia qualquer movimento de democratização socialista, ligado à produção e à classe operária, e no cenário mundial o capital, envolto pela ideologia liberal, estava numa incontrastável ofensiva, a solução proposta pela burocracia para sua própria crise, apenas abriu caminho para uma revoluçào liberal-burguesa, que uniu a burguesia russa e um setor da burocracia, despidas de qualquer princípio ético-moral, ao grande capital mundial na obra de sepultamento do socialismo estatal. Assim pode o grande capital não só vingar os transtornos causados pela revolução socialista de 1917-21 e, embora fosse produto da derrota e mesmo negação daquele processo, também pelo socialismo de Estado construído na era staliniana, como rescrever a história, caluniando ou elidindo a cultura socialista, de maneira a desferir um golpe decisivo no movimento operário dos países mundo do trabalho colocara as instituições e a cultura do movimento operário em crise profunda, que o colapso do socialismo estatal iria apenas acentuar. Essa crise se expressa na diminuição, não só no número de operários ocupados nas grandes fábricas taylorizadas mas também no número relativo de filiados aos sindicatos, invertendo uma tendência histórica que vinha, com algumas interrupções, desde o século passado. A desocupação massiva penaliza fortemente os sindicatos que acreditaram sempre no seu inexorável fortalecimento e na suficiência de suas lutas quase que limitadas a garantia de emprego e melhoria salarial, além da assistência social providenciaria. Diante da ofensiva do capital essas bandeiras são ao mesmo tempo insuficientes e inexeqüíveis, o que empurra a ação de alguns sindicatos para a defesa de interesses meramente corporativos, entrando em direto entendimento com a empresa, contribuindo para o aumento da competitividade desta, no fito de garantir alguma estabilidade empregatícia e barrar a diminuição do número de associados. 
O surgimento em algumas regiões, de um sindicalismo de trabalhadores ocupados na prestação de serviços, público ou privado, como funcionários da administração, bancários, engenheiros, médicos, etc., apesar de atenuar a crise do sindicato como forma de organização, aplicando-lhe uma infusão numérica e intelectual, não mostrou-se capaz de oferecer uma alternativa global para uma força de trabalho crescentemente diferenciada e fragmentada. Isso porque a ameaça da desocupação estrutural, advinda da inovação tecnológica, aliada à difusão da prática da terceirização da prestação de serviços afeta drasticamente também esse sindicalismo mais recente e intelectualmente melhor preparado. De tal modo, a própria organização vertical, por profissão, do sindicato, entra em crise, acentuando ainda mais a tendência ao corporativismo e a burocratizarão, expressão mais completa da ausência de uma ação histórica tendo em vista a construção da hegemonia do trabalho em torno de um projeto socialista. O resultado é que o sindicato fica sempre mais dependente da agenda do capital.
Com a significativa exceção do Labour Party, um "partido sindical" na origem, a autonomia relativa entre sindicato e partido operário foi reconhecida como constituindo diferentes instâncias de ação prática do movimento operário. A histórica divergência está na relação entre estas instâncias, sobre qual seria a preponderante. Sempre de maneira geral, pode-se dizer que a tendência social-democrata preferiu seguir as opções das direções sindicais e transpo-las para o debate parlamentar, enquanto que os comunistas interpretam o partido como sendo portador dos interesses gerais do mundo do trabalho, atuando na fábrica, no sindicato e nas instituições representativas. De qualquer maneira, ambas as vertentes do movimento operário aproveitaram a organização ocupacional definida pelo capital dentro do processo produtivo como base da organização partidária, sendo o território encarado como campo secundário de ação.
É evidente então que os mesmos elementos que colocaram em crise o sindicalismo afetaram o partido. A social-democracia ao priorizar o parlamento e, portanto, a busca de consensos eleitorais, deslocara-se desde os anos 60 para o território, diluindo aos poucos seu caráter de partido operário, embora ao sindicato e a organização fabril restasse sempre a tarefa de negociar as condições de trabalho com o patronato. Mas diante da incapacidade de responder a crise do capital com sua própria hegemonia, a partir da produção e da cultura (o que não mais fazia parte dos objetivos dos social-democratas), contestando tanto o taylorismo como o individualismo consumista, também os comunistas passaram aos poucos, a partir dos anos 80, a enfatizar o território, numa tentativa de incorporar os "novos sujeitos", jovens e mulheres, e o temário ambientalista.
Começava a imperceptível transição discursiva e política dos temas do mundo do trabalho e do socialismo para aqueles da cidadania e da democracia, redundando enfim na aceitação da lógica do capital. Uma resposta débil para a crise ideológica do movimento operário cujo ideário socialista estava desacreditado por parecer inexeqüível, sendo trocado por um programa reformista numa vã tentativa de bloquear o declínio eleitoral. Essa linha política, proposta pelo PCI, mostrou-se tão inútil para fazer frente à crise quanto a opção pelo "entrincheiramento" feita pelo PCF e que assistiu quase que impassível o declínio do sindicato e de seu peso eleitoral. Seguindo um ou outro desses exemplos, o vendaval da crise se abateu sobre o conjunto dos partidos comunistas, com maior ou menor inserção social que tivessem.
A eficácia da ação do capital e da recomposição hegemônica ficou cabalmente demonstrada pela capacidade de decapitar o movimento operário de seus intelectuais, que representavam o mundo do trabalho na sociedade civil e defendiam seus interesses no Estado liberal democratizado, induzindo um movimento massivo de "transformismo" que ficou conhecido como "crise do marxismo". A partir de fins dos anos 70, parte crescente da intelectualidade de formação marxista e dirigentes políticos da classe operária passam a privilegiar seus próprios interesses materiais constituídos dentro da ordem do capital, com a decorrente reversão ideológica ao reformismo de natureza liberal-democrática.
A social-democracia no governo reconhece a crise do Estado assistencial do qual fora co-autora e adere à reestruturação capitalista, eximindo-se de defender o mundo do trabalho do ataque do capital, promovendo, pelo contrário, desemprego em massa e corte nas despesas sociais, seguindo as receitas do ideário liberal das forças sociais conservadoras. A adesão de grande parte da social-democracia à posições do liberalismo estava à vista já nos anos 80, mas em relação aos partidos comunistas, a capitulação ideológica embutida na "perestroika" soviética, apenas estimulou um movimento convergente de crise, como não poderia deixar de ser, tendo em vista a ligação histórica originária na Terceira Internacional. A derrocada final do socialismo estatal, simbolizada na queda do muro de Berlim e depois com a desintegração da URSS, serviu para que parte das direções político culturais do movimento operário de perfil comunista reconhecesse a insuperabilidade da ordem do capital e da institucionalidade liberal-democrática, passando a propor-se como "esquerda democrática".
Esta tem o significado de uma reinvenção do reformismo social-democrata do início do século, uma nova forma de subalternização do movimento operário ao liberalismo e uma adesão à revolução passiva como programa (como temia Gramsci). A diferença fundamental está em que a moderna esquerda democrática não reconhece a centralidade do mundo do trabalho na produção da história e prescinde da idéia de socialismo como teleologia. Mantêm-se porém atada aos temas da ética e da cidadania social, optando pelo "agir comunicativo" (Habermas) e para a definição das "regras do jogo" democrático (Bobbio). Além da maioria do PCI, a maior parte dos partidos surgidos da crise final do stalinismo na Europa oriental e também na Escandinávia, enveredaram por esse caminho, com reflexos evidentes na América Latina. Os partidos que ultrapassaram a tormenta do triênio 1989-1991 preservando o projeto socialista, mostraram até o momento parcas condições de escapar do imobilismo, superando uma cultura política decrépita, de modo que o que se assiste é uma homologação quase generalizada à ordem, com a decorrente diminuição da pressão sobre o capital.
IV
A crise expansiva do capital, desencadeada em meados dos anos 70, através da revolução técnico-científica, recompõe com força inaudita a hegemonia liberal-burguesa, desarticulando a resistência operária, e projeta o processo da acumulação numa nova fase de desenvolvimento da contradição imbutida na valorização. Essa se manifesta na globalização do capitalismo e na configuração do império universal do Ocidente liberal. Há uma aceleração no processo de concentração e centralização do capital, assim como se acentua o predomínio do setor financeiro que aufere fabulosos lucros através da especulação, possível pela apropriação privada da informação. A especulação, com dinheiro gerando mais dinheiro sem passar pelo processo produtivo, e a poupança de trabalho vivo, possível com as novas tecnologias, "espiritualiza" o capital, que se torna o invisível senhor do mundo dessacralizado, desrespeitando territórios, externalizando a natureza e fazendo supérfluos os homens. O capital se coloca à margem da ordem jurídica que ajudou a construir, investido pesadamente no comércio de drogas, de armas e de petróleo, destruindo vidas e ambiente.
O Estado nacional, necessário como espaço de acumulação nas fases iniciais da modernidade capitalista, torna-se agora supérfluo como local de gestação de identidades coletivas para reduzir-se a guardião do indivíduo mercantil, retornado ao estado de natureza. As instituições políticas representativas, relativamente democráticas, emersas nesses últimos cem anos, são esvaziadas em favor de burocracias extra e supranacionais que comprometem os espaços de soberania e a própria idéia de projeto nacional. As grandes corporações transnacionais induzem a formação de mega-blocos econômicos, redefinindo os espaços de acumulação e drenagem de recursos, criando novas fronteiras sociais que estabelecem "ilhas" de riqueza e alta qualidade de vida em meio ao "oceano" de miséria humana e devastação ambiental.
As alternativas nacional-populares, já difíceis, tornam-se inviáveis, e mesmo os espaços, sempre limitados, de autonomia e autodeterminação de capitais locais, definidos em Estados liberais e/ou corporativistas das fronteiras e zonas de choque da expansão capitalista, são reduzidos a impotência. As classes dominantes "nacionais" sentem-se impelidas a buscar uma nova inserção no mercado capitalista global e são obrigadas a suportar a colonização de seu mercado interno. Antes mesmo de se completarem, encontram-se esgotados os projetos nacionais gestados fora do núcleo do Ocidente, devido a ação global do capital, o mesmo sujeito histórico que havia sugerido sua emergência numa outra fase de desenvolvimento das contradições da modernidade.
O liberalismo, invólucro ideológico da ação do capital, que fundamentou a idéia de Estado nacional, encara agora sua vitória ao apresentar todo o planeta como obra da vontade de domínio do Ocidente. O papel do Estado, nessa representação ideológica, deve limitar-se então a impedir que o sanha do homem mercantil inviabilize a acumulação capitalista, promovendo um resvalamento para uma incontrolável barbárie tecnológica. Esse império universal do Ocidente liberal, que enfim completa o domínio sobre o planeta, além da ampliação de instrumentos de coerção, tem na OTAN sua principal força armada, capaz de sufocar eventuais disrupções nas "províncias", mas estimula, ao mesmo tempo, uma generalizada guerra civil mundial de baixa intensidade, reflexo da vitória do homem mercantil individualista, que se manifesta, paradoxalmente, na forma de conflitos étnico-religiosos ou de "gangs" urbanas, na busca de alguma identidade nesse mundo de personalidades dependentes e transitórias. A força da ideologia liberal, que se vangloria como a única legítima e universal, identifica nessa situação a condição humana, valorizando-a como o mundo da pluralidade e da diversidade.
No entanto, a ordem fundante da modernidade, orientada para a acumulação indefinida do capital, embora não ouse reconhecer, através da revoluçào técnico-científica, coloca num novo patamar a contradição proposta no processo de valorização, reinventando seu subalterno necessário e potencializando uma nova subjetividade antagônica. A informática, a robótica, a bio-engenharia, a química fina, permitem uma intensa substituição do trabalho vivo (capital variável) pelo sistema de máquinas automáticas e inteligentes (capital constante), que aumenta extraordinariamente a produtividade do capital, mas reduz a fonte da valorização que é a força de trabalho acoplada ao mecanismo da produção de mercadorias (valor de uso + valor de troca). Ao mesmo tempo, a exclusão de massas crescentes de trabalhadores do processo produtivo ameaça deixar sem valor de uso a massa de mercadorias que vê assim negada sua finalidade de valor de troca. O resultado é uma crise na realização do capital.
Esse novo patamar da contradição da modernidade que realiza o universalismo abstrato da mercadoria, dá uma nova dimensão e uma nova visibilidade às relações conflituosa entre os sexos, que na verdade origina-se em concomitância com a divisão social do trabalho, quando a mulher foi submetida ao poder do homem. Na modernidade, a mulher, já expropriada de seu saber específico, ligado à natureza e aos processos vitais (identificados com o "mal"), passa a ser propriedade privada do homem na família nuclear e mero instrumento de transmissão hereditária de bens acumulados ou então geradora de uma prole a ser explorada duplamente, pela família e pelo capital. Mas a incorporação das massas femininas ao mercado de trabalho e ao consumo de massa, associado ao declínio da família tradicional, deslocam a questão da igualdade/diversidade sexual do mundo privado para a esfera pública, que torna-se assim uma questão genérica da humanidade. É perceptível, na atual fase do processo de acumulação do capital, que as mulheres são as vítimas maiores das iniquidades geradas, arcando com fatias maiores nos indicadores de exploração social do trabalho e de violência, tendo seus corpos e subjetividade específica transformados em mercadoria.
Também o confronto entre culturas humanas e ambiente natural reporta-se ao surgimento da divisão social do trabalho, mas vem se desenvolvendo de maneira crescente e ininterrupta desde o século XII, com a maturação do feudalismo ocidental, inserindo-se, posteriormente, como faceta da contradição da modernidade, com o capital, no seu processo de realização, agredindo e transformando a natureza em mercadoria e detrito. No momento que o processo reprodutivo do capital se apossou de todo o ambiente planetário, o resultado é uma crise ecológica de caráter global que ameaça a humanidade, colocando a nu a contradição entre homem social e natureza.
V
Assim, a contradição da modernidade posta e reposta na valorização capitalista, ingressa num patamar de radicalização com a transformação em ato, operada com a revolução técnico-científica, de uma parcela da classe operária em componente consciente do sistema de máquinas, que se vê destituída de subjetividade própria (que ainda subsistia no taylorismo), e generaliza as contradições presentes de modo parcial nas formações sociais pré-modernas. Nessas condições, os espaços de reformismo, em vez de se ampliarem, como crê a leitura da atual crise do capital e do colapso do socialismo de Estado feita pela esquerda (liberal) democrática, se estreitam drasticamente. Na verdade, trata-se de, a partir da constatação da derrota e do esgotamento teórico-prático do movimento operário tal qual constituído nesse século, dar início à gestação de um novo antagonismo social dotado de uma nova subjetividade, e não adequar-se a ordem vitoriosa do capital, como sugere tal leitura.
Um novo movimento operário, dotado de uma subjetividade antagônica, tem que necessariamente partir do resgate da autonomia de classe diante da ação do capital, confrontando sua hegemonia no cotidiano, através da autogestão da força de trabalho, mercadoria imprescindível à valorização capitalista, e reconhecendo sua identidade imanente na capacidade de movimentar e gerir os meios de produção. Nesse sentido, ao sindicato cabe garantir a autonomia de ação dos trabalhadores diante da empresa e do Estado, evitando as duas faces do corporativismo. Diante da fragmentação da força de trabalho e da redefinição de seu perfil, além da histórica luta em defesa do emprego e do salário, o sindicalismo deve retomar com força a luta pela redução da jornada de trabalho (estagnada a quase um século!), tendo em vista a atenuação do desemprego estrutural, sem deixar de preservar os elos com aqueles que perderam irremediavelmente o posto de trabalho.
Mas ao mesmo tempo, deve-se obrar para que o tempo sobrante seja transformado em espaço/tempo de liberdade, coletivamente autogerido, no sentido da preservação e acúmulo de saber e valorização da força de trabalho diante do capital. O sindicato pode então condicionar o sentido da inovação tecnológica, opondo-se ao produtivismo (a produção pela produção), defendendo a saber operário e respondendo pelos efeitos provocados na relação homem social/ambiente. Para romper com o corporativismo e recompor a solidariedade operária esgarçada, o sindicato terá que ampliar e diversificar sua esfera de ação, incorporando a questão feminina e ambiental no embate pelo resgate da autonomia de classe, privilegiando ainda formas organizativas horizontais que agreguem desde novas profissões que surgem da revolução tecnológica até os sem trabalho. Mas, diante da ofensiva do capital desterritorializado e globalizado, o movimento sindical tem que encontrar formas organizativas supranacionais do mundo do trabalho se pretender um real resgate de autonomia, criando condições de enfrentar o futuro.
A exemplo do sindicato, também o(s) novo(s) partido(s) político(s) de massa originado a partir do mundo do trabalho, terá que efetuar um árduo trabalho de recomposição que escape da atual situação oscilante entre a homologação e a estagnação em que se encontram os chamados partidos de esquerda. O partido não perde seu papel de mediação na relação entre o mundo do trabalho e as instituições da ordem do capital, mas as formas organizativas hierárquicas e potencialmente burocratizantes, que reproduzem a relação dirigentes/dirigidos e a forma estatal contra a qual diz lutar, não servem como instrumento de embate contra a lógica do capital. O papel de um novo partido de massa do mundo do trabalho é o de agregar setores sociais, movimentos e espaços anticapitalistas numa pluralidade de organismos horizontais e policêntricos, constituindo-se em partido-movimento produtor de síntese teórica e de programa coletivo, criador de uma nova práxis socialista corrosiva da hegemonia liberal-burguesa. Mas o partido operário "nacional" nessa nova fase da contradição em processo não pode mais que ter uma eficácia meramente defensiva. Uma nova agregação política do mundo do trabalho terá que englobar regiões e continentes, se quiser colocar em pauta a questão do poder (e não somente a gestão do atual estado de coisas).
A este ponto deve estar claro que, embora sindicato e partido continuem sendo instituições essenciais para um novo movimento operário e socialista, nada poderá jamais ser como antes. A elevação da contradição da modernidade a um novo patamar generaliza a luta de classe de tal forma que o que era entendido por essa expressão mostra seus limites e deixa de ter sentido. Ou seja, a luta econômica da classe operária pela limitação da exploração capitalista mostrou suas insuficiências e não foi capaz de projeta-la como classe universal. Da mesma maneira o marxismo clássico não foi capaz de romper a hegemonia burguesa criando uma nova cultura universal. A recomposição de uma teoria crítica da ordem do capital é condição para que se efetive um movimento de superação do atual estado de coisas. É preciso que se efetive um corte epistemológico no interior da tradição crítico socialista, que uma vez mais resgate a dialética histórica, mas estruture novos conceitos e uma nova linguagem, promovendo uma refundação teórico-prática do socialismo.
Uma nova práxis socialista, capaz de dissolver a lógica do capital e concretizar a possibilidade real de fazer dos homens, emancipados no seu trabalho, gestores de máquinas automáticas e de seu tempo efetivamente livre, deve se e
capitalistas.